Beber para driblar a fome e controlar o peso. Em Viver a vida, novela de Manoel Carlos, é a atriz Bárbara Paz quem incorpora esse novo personagem do mundo contemporâneo, em que o corpo é transformado em mercadoria, e o consumo faz desaparecer a insatisfação. “No mundo do consumo não há lugar para a subjetividade. E o sentido da vida se reduz à produção de um corpo perfeito. Junte a isso aspectos como o declínio dos ideais, a descrença nas leis, nas autoridades e na religião. O resultado são quadros clínicos e sociais relativos aos ‘sem-limites’. O discurso contemporâneo fala do ‘tudo pode’”, explica a psiquiatra Ana Raquel Corrêa e Silva, da equipe interdisciplinar do Núcleo de Investigação de Anorexia e Bulimia (Niab), do Hospital das Clínicas da UFMG.
A trama serve de alerta para os pais e responsáveis por meninas, a partir dos 18 anos, que apresentem indícios de distúrbios alimentares e/ou de consumo de álcool. “Com essa identificação, é possível procurar ajuda precoce”, diz Patrícia A. de Oliveira, médica e nutróloga, responsável pela equipe multidisciplinar de terapia nutricional do Hospital Bandeirantes, em São Paulo.
Ícones da música pop, como Amy Winehouse e Britney Spears, ou celebridades como Paris Hilton, Nicole Ritchie e Lindsay Lohan, que, frequentemente, combinam o uso de álcool e drogas com pouca ou nenhuma comida, costumam influenciar as jovens, que já estão criando blogs e comunidades virtuais com fotos e apologia à magreza. Uma delas é Dani, responsável pela comunidade Drunkorexia, no Orkut, criada em 4 de outubro. São apenas oito adeptos, “mas o que começa como uma brincadeira pode chegar a graves complicações de saúde, até o risco de morte”, alerta outra médica nutróloga, Maria Del Rosário, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).
Noventa por cento dos casos de anorexia nervosa são de mulheres. A frequência vem aumentando devido ao culto à magreza provocado pela mídia e, consequentemente, aos valores distorcidos incentivados pela sociedade.
Em busca de um corpo perfeito como o das atrizes, modelos e cantoras, as jovens tendem a procurar formas de chegar ao aspecto físico desejado. É nessa hora que a anorexia pode se manifestar. “A drunkorexia pode atingir mulheres a partir dos 18 anos que ingerem quantidades cada vez maiores de bebidas alcoólicas e restringem a ingestão de calorias na tentativa de manter o corpo magro. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o alcoolismo atinge cerca de 12% da população feminina mundial”, diz a nutróloga Patrícia de Oliveira.
Anestesia
No Brasil, ainda não existem dados sobre a drunkorexia. Porém, há índices que associam o alcoolismo feminino a transtornos psicológicos como bulimia, anorexia, ansiedade e depressão. “O álcool se torna uma forma de anestesiar as emoções negativas e, na busca por um corpo perfeito, a bebida é usada para reduzir a compulsão por alimentos e o apetite. Além disso, os efeitos do álcool amenizam os sintomas psicológicos e, quando ingerido com o estômago vazio, a ação é ainda mais rápida, tornando-o um grande aliado”, explica.
Mesmo sendo uma fonte calórica, o álcool substitui o alimento sob a forma de calorias vazias, pois ele não é usado eficientemente pelo organismo como forma de combustível. “Tanto a digestão como a absorção das calorias são prejudicadas, já que a nutrição nessas condições ocorre sob a influência de um déficit de tiamina, vitamina B12, ácido fólico, zinco e aminoácidos. Com o metabolismo alterado, os micronutrientes (folato, tiamina, piridoxina, vitamina A, vitamina D, zinco, selênio, magnésio e fósforos) sofrem alterações. As consequências são distúrbios nutricionais importantes com alterações orgânicas como arritmias, convulsões, doenças neurológicas, anemia, distúrbios menstruais, alterações da tireoide e endócrina. Portanto, além da perda de apetite, complicações como esofagite, gastrite hemorrágica, hepatite alcoólica e diabetes secundária podem ocorrer.
Mais vulneráveis
Estudo realizado pelo Ministério da Saúde entre 2006 e 2008, em 27 cidades, pesquisou o consumo de álcool entre mulheres de 18 a 44 anos. Foi observado que, quanto mais jovens, mais elas se aproximam dos homens na quantidade de consumo de bebidas alcoólicas. Trinta e cinco por cento das pessoas que fazem regime evoluem para dietas patológicas e 25% para transtornos alimentares compulsivos. As mulheres têm cinco vezes mais chances de apresentar abuso e álcool ou consumo de drogas do que os homens.
Fonte: Portal Uai







































Mais uma boa reportagem/orientação deste admiravel, por sua excelência, blog. Abraços