O caso da nadadora que denunciou assédio sexual na infância – do qual ÉPOCA revela fatos novos – mostra por que é tão difícil enfrentar o grave problema da pedofilia no esporte

Ao marcar 4m44s66 na prova dos 400 metros quatro estilos do Troféu Maria Lenk, em maio, no Rio de Janeiro, a nadadora Joanna Maranhão, de 21 anos, pôs para fora toda a angústia de um ano conturbado por problemas pessoais. Chorou na piscina e emocionou a multidão presente na competição.
Foi um ano atribulado para a atleta pernambucana. Apontada como a grande revelação da natação brasileira ao se classificar para a final da mesma prova nas Olimpíadas de Atenas em 2004, Joanna viu seu rendimento cair bruscamente depois dos Jogos. No início deste ano, poucos acreditavam que ela conseguiria uma vaga para Pequim. O que ninguém sabia era do turbilhão de sentimentos na cabeça da nadadora.
Tudo ficou mais claro em fevereiro, quando Joanna decidiu romper um silêncio de 12 anos, afirmando, em uma entrevista ao site gazetaesportiva.net, que foi molestada sexualmente na infância por um ex-técnico. O caso teria ocorrido quando a atleta tinha apenas 9 anos. Na ocasião, Joanna não deu nomes. Mas a mãe da nadadora, a médica Teresinha Maranhão, decidiu revelar que o suposto agressor teria sido o treinador da atleta na época (o nome desse treinador não será publicado aqui por não haver sentença contra ele). O escândalo abalou a natação brasileira e foi parar na Justiça. Na primeira audiência, no Fórum Thomaz de Aquino, no Recife, Joanna e a mãe ficaram frente a frente com o ex-treinador. A atleta chorou. “Até me sinto culpada”, diz a mãe. “Na época ela tentou me dizer, com muita vergonha e disfarçando o assunto. Achei absurdo, podia ser uma impressão dela ou um mal-entendido. Só mudamos Joanna de clube depois de muita insistência dela, que ameaçava até deixar de nadar.” Semanas depois, em texto enviado por e-mail da Espanha, onde treinava com a seleção brasileira de natação, Joanna detalharia sua versão dos fatos.
Teresinha conta que, no início, a filha parecia ter apagado o episódio da memória. “Mas na adolescência isso voltou com força”, diz. “Atrapalhou Joanna nos treinos, nos estudos e até no namoro. Ela começou a fazer análise em 2006 e teve de tomar antidepressivos.”
Hoje, Joanna se diz melhor. Está aliviada por ter conseguido o índice olímpico e, segundo ela, ter se libertado do que a angustiava por dentro. Joanna está pensando em casar-se no fim do ano com o namorado, o estudante de Direito Rafael Sá. “Ele tem sido um grande companheiro neste momento e desde sempre. Quero ir morar fora do Brasil e criar meus filhos fora. Começar uma nova fase da minha vida.”
Mais importante que isso, Joanna tem consciência de que seu caso não é o único. Pretende fazer campanha contra a pedofilia no esporte. Em depoimento por escrito a ÉPOCA, afirmou: “Acho isso monstruoso. Monstruoso não somente o ato em si, mas a normalidade com que as pessoas tratam do assunto. Muitos preferem fingir que não acontece, nunca se apura devidamente e é por isso que há milhares de pedófilos dando aulinhas de natação e de outros esportes por aí. Pretendo fazer minha parte quanto a isso após Pequim”.
De acordo com o advogado da família de Joanna, Carlos Gil, ela não pode mais mover processo judicial contra o ex-treinador. A lei prevê que, em casos de assédio sexual ocorrido na infância, como aconteceu com a atleta, a vítima tem até os 18 anos e seis meses de idade para apresentar queixa. Depois disso, “mesmo que haja provas, não há mais nada a ser feito”, diz Gil.
Esse é um problema sério da lei atual. Como a vítima de abuso na infância tem apenas até seis meses, atingida a maioridade, para se manifestar, casos como o de Joanna, que só conseguiu falar do trauma aos 21 anos, podem beneficiar criminosos. “Em razão das peculiaridades dos casos de abuso sexual em que as vítimas são crianças, o prazo para a queixa-crime deveria ser revisto”, afirma a promotora de Justiça Veleda Maria Dobke, de Porto Alegre.
Testemunhos de outras pessoas podem ajudar. Desde que revelou o abuso, Joanna foi procurada por duas moças que também dizem ter sido molestadas pelo mesmo treinador, no mesmo período. ÉPOCA teve acesso a detalhes do depoimento de uma delas. “Teve uma competição e minha mãe não podia me levar. Ele disse que me levaria para a casa dele após o treino e de lá iríamos ao campeonato. Quando chegamos, ele deu um jeito de pedir para a filha fazer algo e me chamou no quarto do filho, sob a desculpa de me mostrar um gráfico com informações sobre meus tempos. Mesmo assustadíssima, fui ao quarto e ele me colocou no colo. Depois começou a alisar meu peito e pegou nas minhas partes íntimas”, diz a garota, cuja identidade está sendo preservada. As duas novas testemunhas se dispõem a ir aos tribunais, se preciso.
O ex-treinador de Joanna afirma que as acusações da atleta não têm fundamento. Evita falar com a imprensa, mas entrou com um processo judicial por calúnia contra Joanna e Teresinha Maranhão. No mês de maio, a ação foi suspensa pelo juiz do 1o Juizado Especial Criminal do Recife, Aílton Alfredo de Souza, por causa da decisão do Supremo Tribunal Federal que suspendeu provisoriamente a Lei de Imprensa, em cujo artigo 21 (crimes contra a honra) o processo se baseia. João Olympio Valença de Mendonça, advogado do ex-técnico de Joanna, diz que poderia ingressar com uma ação penal contra a atleta e sua mãe, mas prefere esperar pelo posicionamento do STF. “É mais prudente não desistir da primeira ação. A depender do pronunciamento do Supremo, poderemos estudar novas estratégias.” A suspensão do processo, por ora, pode dar a Joanna a paz de que ela necessita para obter um bom resultado em Pequim.
A carta de Joanna à Justiça
“Infelizmente ou felizmente não estou presente neste momento. Mas tenho absoluta certeza de que é por uma boa causa. Diferente do que muitos pensavam e desejavam, estamos – digo “estamos” pois não credito meus méritos na natação a mim mesma –, portanto, ESTAMOS classificadas para as Olimpíadas de Pequim.
O que quero dizer com esta carta é tudo aquilo que eu diria se estivesse presente. Diria ao sr. (nome do treinador) que, apesar dos fatídicos eventos que ele me fez passar no ano de 96, me fizeram muito mais forte (sic). Quero dizer que o fato de ele ter me despido na cama da própria esposa e ter me bolinado enquanto eu chorava e pedia para parar ainda é um fato que me enoja e me dói, mas isso não me derrotou. Eu hoje tenho 21 anos, sou uma mulher, uma adulta que passou por muitas coisas. Sou dependente de antidepressivo e apesar de tudo isso estou aqui hoje, mesmo que por meio de palavras, pronta para lutar por justiça. Porque, se o medo e a vergonha me calaram durante 12 anos, não me calam mais.
Mais forte do que a vergonha, o medo, a dor de lembrar de tudo aquilo, mais forte do que tudo isso está a minha vontade de fazer justiça. Já fiz na água, quando duvidaram de mim, e agora anseio por justiça na vida. Porque nenhuma criança, aliás, nenhum ser humano merece ser tocado daquela forma. Pedofilia é uma doença e é triste que um homem não tenha tido a capacidade de se controlar diante de uma criança.
Se eu disser que não tenho mágoas do que sofri, estarei mentindo. Sou humana e não consegui até hoje me libertar desses sentimentos que vez por outra me tomam o sono e me deixam presa num pesadelo que infelizmente eu vivi na vida real. Só peço que, pelo amor de Deus, a Justiça não deixe esse homem encostar em mais nenhuma criança.
Não quero acabar com a vida de ninguém. Tenho muita pena dos familiares desse homem que vão morrer acreditando na inocência dele – e eu não os culpo, pois meus próprios pais acreditavam e é por isso que eu vivia na casa dele. Confiança! Eu confiava naquele homem, creditava minha evolução no esporte a ele e quando comecei a ser tocada achava que a culpa era minha, achava que eu tinha feito algo errado, que estava pecando, quando na verdade eu era a vítima. Também não gostaria que ninguém tivesse pena de mim, apenas que ouvissem o meu apelo por justiça, por mim e pelas outras duas meninas que prestaram depoimento. Outras duas infâncias perdidas, outras duas inocências jogadas no lixo por uma doença incontrolável.”
REVISTA ÉPOCA






































