Vocês lembram de Cobras e lagartos, uma novela da TV Globo que terminou em 2006? Faço a pergunta, porque esses folhetins são todos descartáveis, apertamos a tecla “delete” e eles caem na lixeira do esquecimento. Ainda bem! Não existe motivo para lembrar.
Eu, que não consigo acompanhar a lengalenga das novelas, nunca perco os últimos capítulos. Havia uma loura chamada Leona, pirada à Michael Jackson, que se trancou com o filho numa loja, com medo de pegar infecção. O pai da criança era o bonitinho Duda, que passou mais de ano em coma, e levantou da cama sem nenhuma seqüela motora. Puxa! Que avanço na medicina dos interiores brasileiros!
Duda tenta roubar o filho de Leona, que ateia fogo na Luxus, a loja cenográfica de isopor e compensado. Tudo bem até aí. Mas a criança disputada no meio de chamas e fumaça é um bebê de verdade, que os pais alugaram como figurante de novela, a troco de algum dinheiro. Pode? Na televisão pode tudo. Uma revista famosa até publicou matéria com elogios a essa nova forma de sobrevivência.
No penúltimo capítulo, eu não despregava os olhos do rosto da criança, chorando e em estado de pânico, arrastada de um lado para outro, em meio à encenação de cores fortes. Não é preciso conhecer psicologia de almanaque para afirmar que ela nunca mais se desfará desse trauma. Ainda bem que no último capítulo arranjaram um artefato bem grosseiro, e substituíram a vítima, a criancinha real, é claro. Na mesma novela empregavam outras crianças e adolescentes, lembro de um garotinho de nome Sushi.
Sempre que a televisão brasileira mostra reportagens sobre o trabalho infantil, foca o Nordeste, o Norte e o Centro Oeste. Na última que eu vi, as imagens eram de crianças tangendo rebanhos de cabras e carregando água em potes e latas.
A televisão nunca apresentou uma reportagem didática, deixando clara a diferença entre exploração do trabalho infantil, e trabalho que é feito dentro da família. Esse trabalho doméstico, aprendido com pais e avós, é a forma mais antiga de aprendizado de ofícios e profissões. É a educação de que se falava antigamente com muito orgulho: passou de geração em geração, de pai para filho.
Mandar crianças ao trabalho em carvoarias, canaviais, casas de farinha ou pedreiras, tirando-as da escola para ganhar um salário miserável, é crime, deve ser fiscalizado e punido. Mas o trabalho para incremento da economia doméstica, ajudando os pais no manejo de rebanhos, no plantio e colheita, no fabrico de vinhos e queijos ou na produção artesanal, deve ser estimulado e louvado. É a maneira de fixar as pessoas no campo, tirá-las da periferia das cidades, ocupando-as e ensinando uma profissão.
Existe hora de estudar e de trabalhar. A educação para o trabalho também começa em casa. As famílias carentes necessitam de uma política de emprego, de ensino profissionalizante para os jovens, dentro da realidade do meio em que vivem. As bolsas família são paliativas, não resolvem a má distribuição de renda, nem o analfabetismo. Até já existe quem faça trocadilho entre bolsa escola e bolsa esmola.
Esmola? Por favor, não. Pois como cantava Luiz Gonzaga: “Mas doutor uma esmola, a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.
Autor: Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens. Assina coluna na revista Continente.
FONTE: TERRA MAGAZINE





































