Valeria Portella, autora do livro Pais e Filhos Conectados, responde dúvidas dos leitores e dá dicas

É possível afastar os filhos dos perigos que rondam o vasto mundo da internet? Em uma família com diálogo aberto e com pais que estão por dentro das novidades e dos riscos da rede, as chances são maiores. A ação de pedófilos e o estímulo ao comportamento violento são as principais preocupações expressas pelos leitores de zerohora.com em suas dúvidas sobre como proteger e estabelecer regras para o bom uso do computador pelas crianças. A publicitária Valeria Portella, autora do livro Pais e Filhos Conectados, ensina alguns truques para configurar melhor o micro usado pelos pequenos, mas enfatiza que é “fundamental lembrar que os pais não devem transferir seus deveres de monitorar e guiar os filhos para um programa de computador”. Ou seja, conhecer a rede, seus benefícios e perigos, é o primeiro e mais importante passo.
Confira a entrevista completa:
Jeanine Pedroso, São Leopoldo – RS – Trabalho com tecnologia. Minha filha, que tem 1 ano, me vê mexendo com computador desde que nasceu. Com que idade é saudável que ela comece a usar a máquina?
Valéria Portella – A questão de ser “saudável” está mais no uso que na idade. Quando é feito um uso sensato do computador, sem tempo exagerado na frente da máquina, não há idade para começar. Tanto que já existem jogos online feitos especialmente para divertir bebês. Onde eles apenas se divertem batucando no teclado enquanto a tela se enche de cores e desenhos. (www.fischerprice.com).
Patrícia Obrakat Salgado, Livramento – RS – Oi, Valéria. Tenho um filho de 8 anos que pouco fica no computador, porque prefere andar de bicicleta, jogar bola, brincar de carrinho e outras atividades físicas. Devo me preocupar e incentivá-lo a utilizar mais o computador ou deixo que ele mesmo se interesse por isso futuramente?
Valeria – Se ele usa pouco o computador, porque encontrou outras formas de se divertir, não é motivo de preocupação. Pelo menos ele já tem algum contato com a máquina em casa e provavelmente, também na escola. O importante é se evitar o analfabetismo digital. Que é deixar crianças em idade escolar sem nenhuma noção de informática, sem nenhum contato com um computador, um problema que já é grave no Brasil. Isso lá para frente, pode transformar estas crianças em adultos poucos competitivos no mercado de trabalho.
Diego Ferreira, Novo Hamburgo – RS – Oi Valéria. Sou estudante de Licenciatura em computação, não vou fazer essa pergunta para usar com meus filhos, mas sim para possíveis futuros alunos que virei a ter… Uma professora me falou que quando nossos alunos estão navegando na internet e acham algo impróprio, com pornografia, por exemplo, não se deve ficar bravo nem, xingar e proibir, já que eles vão procurar isso ainda mais porque o proibido é bom, mas sim tratar como algo natural e explicar e fazer ele entender que na internet existe muita coisa legal, mas também muita coisa que não é saudável. Você concorda com isso? Será que a senhora poderia dar algumas indicações de bons sites para crianças? Obrigado
Valeria – Sim, concordo. O proibido sempre é atraente. E muitas vezes a criança cai num conteúdo inadequado sem querer. É importante criar atalhos na navegação (uma pastinha com sites legais) e se instalar softwares filtradores de pornografia e violência que evitam que as crianças caiam em locais impróprios para a idade. E isso é uma tarefa dos pais e dos educadores. Não pode ser delegada às crianças. Dicas de sites: http://linkbrink.blogspot.com e www.discoverykidsbrasil.com
Leandro Diniz, Cachoeirinha – RS – Uma questão que assola tanto adolescentes quanto profissionais de informática (como eu): como lidar com os pais que não tem o menor conhecimento quanto ao uso da tecnologia? Pois quando adolescente eu tinha de lidar com meus pais que achavam que um computador era um simples eletrodoméstico, e hoje com clientes que por vezes aparecem querendo alguma forma de limitar o acesso dos filhos, e é difícil de explicar que eles só conseguirão isso efetivamente se tiverem um domínio da “máquina” melhor que o dos filhos, senão, só resta a conversa, e o diálogo aberto. Por favor me dê uma luz.
Valeria – Eu sempre recomendo aos pais que de preferências eles mesmos ensinem aos filhos como usar o computador e a internet. Esta é a melhor forma de garantir um espaço na cadeira ao lado dele. Se os pais são iniciantes no assunto, peçam ajuda a algum amigo que entenda sobre o funcionamento do PC e a navegação na web, ou que invistam num curso rápido para aprenderem tudo o que puder. Assim fica mais fácil saber quais os sites mais adequados para crianças, a entender como agir nas salas de bate-papo, nos envios de e-mails, entre outros programas. Custa pouco e na hora de tirar as dúvidas, é dos pais (ou dos professores) que os pequenos vão lembrar.
Gisele Santos, Canoas – RS – Oi Valéria. Minha dúvida está na forma de comunicação escrita das crianças na internet. Muitas delas escrevem de um jeito diferenciado nesses programas de bate-papo (erros de português, falta de acentuação…) e que geralmente são transpostos para o caderno, em sala de aula. Você acha que isso é só uma fase? O que professores e pais podem fazer para mudar essa situação?
Valeria – A internet tem uma linguagem própria, mas rápida, sintética, cheia de símbolos. Na minha opinião, mesmo que as crianças escrevam errado na web, exagerem nos emoticons e usem todo tipo de símbolos no lugar das palavras, o que importa é o exercício, o raciocínio que envolve o ato de escrever. Mas as crianças não devem passar esse tipo de escrita para o caderno escolar. É tarefa dos professores explicarem que são coisas diferentes, e que na escola deve se usar a linguagem formal e correta sempre.
Natalia Prado, Campinas – SP – Qual a melhor forma de monitorar meu filho de 11 anos na internet já que passo a maior parte do dia no trabalho
Valeria – Existem softwares que bloqueiam pornografia, violência e outros tipos de conteúdo inapropriados para crianças. Você pode se informar sobre a instalação deles no seu computador com o seu provedor de internet, por exemplo. Outra dica é criar uma pasta de favoritos na barra de navegação da internet, só com os sites que o seu filho gosta de acessar. Isso evita que ele saia navegando a esmo pela rede e que caia em sites inadequados. Mesmo com essas “ajudas” acho fundamental lembrar que os pais não devem transferir seus deveres de monitorar e guiar os filhos para um programa de computador.
Cristine Pereira, Montenegro – RS – Como posso me atualizar de tudo dentro da internet? Aqui em casa o uso da internet (MSN, Orkut)tem horário. Só depois das tarefas de aula prontas e apenas durante uma hora por dia. Sou mãe de uma adolescente de 14 anos e as discussões são diárias. O computador fica na sala que é de uso geral da casa. Estou sempre atenta, mas mesmo assim me preocupo.
Valeria – A melhor forma de se atualizar é ser usuário de internet. Para ficar em dia com o universo conectado do filho, minha sugestão é que se sente ao lado dele na frente do computador e peça para ele mostrar o que mais está gostando de fazer na rede.
Jogos e redes sociais
Flávia Alves, Viamão – RS – Tenho três meninos viciados em jogos, para piorar agora eles descobriram um jogo tipo RPG que jogam durante horas, cada qual quer jogar mais, não sei o que fazer para chamar a atenção deles para outras coisas. Se eu mandar, eles param, mas é toda hora pedindo “deixa eu jogar só mais um pouco, por favor”. Sinto que nada é mais importante para eles do que jogar. Isso me preocupa, só que estou sozinha nesta, pois meu marido acha isso super normal.
Denise Lima, Cruz Alta – RS – Estou enfrentando alguns problemas com meu filho de 16 anos, pois não estuda mais e fica horas na frente do computador jogando. Já tentei encaminhá-lo para um psicólogo para ajudá-lo porém não obtive êxito, penso em cancelar a internet mas acho que será pior. O que devo fazer?
Nilson Duarte, Brasília – DF – Meu filho vai completar 4 anos e adora jogar joguinhos na internet. Gostaria de saber se há algum problema, devido à idade, e por quanto tempo ele pode permanecer jogando. Obviamente, eu monitoro o tempo todo.
Marione Rita Alves Perez, Curitiba – PR – Minha filha tem 7 anos e acessa a internet quase todos os dias. Só permitimos que ela acesse nos jogos para sua idade, procuro estar sempre por perto, observando… Existe um limite de horário para as crianças ficarem brincando no computador ou acessando a internet?
Valeria – Quando a atividade é puramente diversão, jogos, etc, vale a pena estipular um horário de no máximo duas horas diárias. Mas se a criança ou o adolescente precisa usar o computador para pesquisar e estudar em bibliotecas virtuais, por exemplo, esse tempo provavelmente vai se estender. E fica difícil estabelecer um horário mais rígido. É importante os pais avaliarem cada caso. Mas sempre é bom lembrar que exagero, tanto no computador quanto na tevê, nunca é bom. De qualquer forma, o tempo na internet e nos jogos deve ser estabelecido pelo pais, assim que o computador for colocado à disposição da criança ou do adolescente. É uma questão de estabelecer limites, e pai e mãe devem estar de acordo. Não adianta nada um falar que é hora de parar se o outro permite. Se mais pessoas usam o PC na casa, deve se criar uma regra bem clara de uso e conversar isso com a família para que todos estejam de acordo. É importante também privilegiar o uso da máquina para quem precisa estudar ou trabalhar.
Claudete Debom, Porto Alegre – RS – Meu filho tem oito anos e seus amigos da escola, do futebol e do clube têm perfis no Orkut. Ele andou me perguntando se pode ter também. Não vejo no que pode ser bom para ele, mas para dizer não, preciso ter um embasamento melhor. O que você acha? Obrigada.
Valeria – Na teoria, só poderiam fazer parte do Orkut e outros sites de relacionamento pessoas maiores de 18 anos. Na prática, não é isso que acontece. Qualquer criança de 8 anos pode mentir a idade e se cadastrar. Não recomendo, que nenhuma criança tenha perfil no Orkut por diversas razões:
— A situação de superexposição da criança: fotos, nome da escola, e-mail. Todos esses são canais abertos para assédio de pessoas mal intencionadas (pedófilos, seqüestradores e outros tipos de bandidagem). Acho muito arriscado.
— Mas se a criança ou o adolescente já criou uma conta no Orkut, Facebook, Myspace, etc, ensine que ele (e isso vale para adultos também) jamais deve revelar dados pessoais como nome, sobrenome, números de telefone, nome da escola e outros dados de identificação ou nível sócio-econômico.
— No MSN, é importante não adicionar estranhos para bate-papo, e principalmente, nunca de jeito nenhum, marcar encontros com alguém que só “conhece” pela internet. A webcam acoplada ao MSN também é um canal que nunca deve ser aberto a estranhos. Há tempos fiquei chocada em saber que muitos pedófilos usam webcam para fotografar crianças e adolescentes sem que eles se dessem conta e depois usavam essas fotos como forma de chantagem: para conseguir fotos mais ousadas ou marcar encontros. A segurança na internet é uma responsabilidade compartilhada. Se você incentivar a criança a fazer uso inteligente da web e mantiver sempre uma conversa aberta sobre os riscos que a rede pode oferecer, fica bem mais fácil evitar qualquer problema.
FONTE: ZEROHORA.COM
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Faço trabalhos sociais com crianças e adolescentes, sempre tive uma preocupação muito grande com o mundo virtual, que tem a função de construir e tambem destruir quando não bem utilizado. deveria existir um programa diário na tv,orientando tudo, alertando sobre o uso da internet.Isso ainda não existe. Estão esperando o quê? Que as coisas se agravem, e só depois de mais acontecimentos desagradaveis,todos venham se alertar que é preciso conscientizar constantemente através da mídia? Escrevo algumas cartilhas e estou sempre passando adiante informações que julgo importantes,cumprindo a minha missão de cidadã.Acho que algo deve ser feito para chamar atenção das autoridades a investirem em algum programa de alerta aos perigos da internet.Isso é tão importante quanto as várias leis votadas nas câmaras.
Boa tarde professora!
Parabéns pela entevista. Muito rica e proveitosa, pois me ajudará a trabalhar de maneira mais clara e consciente com os meus alunos, ajudando-os a usar a informática de maneira saudável.
[...] Crianças e adolescentes podem ter uso saudável da internet [...]