Não importa se ela faz o gênero amiga, exigente ou culpada. Em qualquer caso, a influência da mãe é decisiva na vida da filha

MÃE E FILHA são dois seres que fazem parte um do outro, mas que, na maioria das vezes, não conseguem se conectar totalmente. É uma relação que mistura afeto, proteção, dominação e dúvidas e que, certamente, também faz parte do seu mundo. Afinal, como diz a letra de Arnaldo Antunes na voz de Adriana Calcanhoto: “SAIBA: TODO MUNDO TEVE MÃE / ÍNDIOS, AFRICANOS E ALEMÃES / NERO, CHE GUEVARA, PINOCHET / E TAMBÉM EU E VOCÊ… ” Quem nunca brigou com a mãe que atire a primeira pedra. Uma irritação aqui, uma birra ali, uma discussão acolá é muito mais do que aceitável, é normal. Principalmente naquele período em que a gente não sabe se vai ou se fica: a célebre adolescência. Época em que o “eu sou sua mãe” já não basta para segurar uma garota em busca de auto-afirmação. Ao contrário, pode soar como o estopim para uma rebelião doméstica. E muitas vezes lá se vai a filha sem permissão, mas cheia de razão.
A ADOLESCÊNCIA É A FASE mais difícil, porque as filhas estão meio que abandonando as convicções familiares para adquirir as próprias e deixando-se influenciar pelo grupo”, diz a artista gráfica Ana Adams, 56 anos, mãe de Flora, 22 anos, e Belém, 25 anos. Ana é um exemplo de mãe que surgiu na era pós paz e amor. É aquela com uma visão de mundo mais livre, que tem por característica principal a busca do diálogo. Ela olha os filhos não de cima para baixo, mas no mesmo plano. Os conflitos não deixam de existir por causa disso, mas tendem a ser amenizados porque ambas as partes falam a mesma língua. Só que daí surge outra questão, que mexe bastante com Ana. “Existem momentos em que eu penso se não estou sendo muito amiga, pois o distanciamento também é importante.” A proximidade excessiva pode gerar a inversão dos papéis. Quando a mãe é despreocupada e alternativa demais, a filha às vezes acaba assumindo responsabilidades que não são suas. “Eu já me senti mãe da minha mãe, principalmente em relação aos aspectos práticos da casa”, conta a publicitária Januaria Menegotto, 26 anos. Jajá, como é conhecida, acha que o lado meio hippie da mãe dificultava um pouco o dia-a-dia. Na época em que moravam juntas, incumbia-se de tarefas como as de chamar o encanador ou organizar os pagamentos do mês. Ao mesmo tempo, Jajá lembra de atitudes que somente uma mãe no estilo mais desprendido como a sua seria capaz de ter. Aos 12 anos, Jajá estudava balé e surgiu a oportunidade de ir dançar em Buenos Aires. A mãe estava com problemas financeiros, mas não titubeou, vendeu o carro para que a filha pudesse ir.
EU MESMA NÃO SEI se faria isso pela minha filha. Mas tenho certeza de que mães são capazes de fazer absurdos para o bem de suas crias. Proteger os filhos é orgânico. Pena que algumas exagerem na dose. Como se passar a mão na cabeça fosse sinônimo de amor. A orientadora educacional Isabel Tremarin, que há 20 anos trabalha com adolescentes no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, percebe que as mães se aliam aos filhos mesmo quando eles estão errados. Isabel conta o caso de um aluno que usou a internet para difamar um professor. A mãe foi chamada e, no lugar de refletir sobre a atitude do filho, acusou a escola de invadir a privacidade dele. O inquietante é que, com esse tipo de respaldo, o garoto vai achar que tudo lhe é permitido. “A conseqüência é que o adolescente fica a um passo da transgressão. E quanto mais alta a classe social, maior o problema”, alerta Isabel. É bom dizer que superproteção materna é algo que aparece não apenas na escola mas também nos consultórios. O médico internista Rogério Tovar conhece muito bem essa história: nas consultas, não raro se depara com mães que tratam os filhos quase adultos como se fossem crianças. “Acham que uma dor de cabeça é sinal de aneurisma”, conta. Por trás disso, claro, está a ansiedade, quase sinônimo de maternidade.
A CULPA TAMBÉM é uma companheira permanente das mães. Trabalhar demais, optar pela separação, não poder pagar um curso de inglês são situações que fazem uma mãe sentir-se em dívida. Piores são aquelas culpas mais enraizadas, que se instalam nas profundezas de nossas certezas, deixando, inclusive, os próprios filhos com peso na consciência. O maior conflito da escritora Cintia Moscovich, 48 anos, com a mãe é justamente esse: “Ela faz com que eu me sinta culpada porque sofreu para criar os filhos, e eu aceito essa culpa e ainda sou agradecida. O prazer de ter filhos, o prazer de ter mãe, tudo isso fica meio nublado”. Tão nublado que muitas vezes as filhas demoram para perceber uma atitude positiva da mãe. Aconteceu com Cintia. Seu marido estava hospitalizado e precisava com urgência de uma autorização do plano de saúde para uma operação. Como a autorização nunca vinha, a mãe de Cintia fez um escândalo. “Na hora, eu fiquei chateada. Não entendi que ela era uma leoa lutando pela vida dos filhotes. Só vi depois. E meu marido foi salvo pela intervenção dela.”
A MAIORIA DAS MÃES é assim: interfere, tenta controlar, acha que sempre sabe o melhor. E pode até saber, o difícil é uma filha aceitar isso no dia-a-dia. Irritar-se com um simples “quem era no telefone?” é algo que acontece quando mães e filhas vivem na mesma casa. Depois de morar anos no exterior, Sara Soilbemann, 35 anos, produtora de cinema, voltou para a casa da mãe. E os conflitos, que pareciam ter sumido, reapareceram. “A convivência faz com que pequenas coisas adquiram uma importância enorme.” Por essas e outras, a arquiteta Suzi Vassão, 39 anos, preferiu sair da casa da mãe, onde morava com a filha, Marina, 9 anos. Minha filha já não sabia se obedecia a mim ou à avó. Só consegui recuperar meu papel quando me mudei.”EM ALGUNS CASOS, porém, a distância atrapalha. Aos 18 anos, a radialista Katia Suman, hoje com 46, resolveu sair do Rio Grande do Sul para se fixar em São Paulo. Durante os sete anos em que viveu fora, ela e a mãe viveram às turras. “Ela não aceitava que eu morasse longe, queria dirigir a minha vida.” A mãe, Daurecy Fróes, 67 anos, confirma: “A Katia tinha tudo aqui, nada justificava sua ida a São Paulo, fiquei muito contrariada”. Hoje, mãe e filha moram na mesma cidade e uma admira a outra. Daurecy só lastima não ter dado mais carinho às três filhas na primeira infância. “Antigamente, as mães eram muito rígidas, hoje a relação parece estar mais suave.” Se está mais suave, eu pessoalmente não tenho tanta certeza. Mas, como diz uma grande amiga minha, Marga Acioli, executiva de 37 anos que foi mãe aos 16, tudo não passa de tentativa de acertar.
SÓ FREUD EXPLICA ESSA MULHER
O psicanalista Celso Gutfreind, autor de O TERAPEUTA E O LOBO, garante que há mais coisas na relação entre mãe e filha do que a gente imagina. Por isso, é preciso chamar o pai!
QUAL É A HERANÇA EMOCIONAL QUE A MÃE DEIXA PARA OS FILHOS?
A herança compreende aspectos genéticos e projeções da vida emocional dela, tanto positivas como negativas. Isso inclui tudo o que não foi verbalizado, nomeado, compreendido e se manteve em segredo na família, às vezes por várias gerações, como um luto não elaborado.
O QUE FAZER, COMO MÃE, PARA NÃO PISAR MUITO NA BOLA?
Não se trata de pisar na bola, mas, sim, de obter ajuda para jogar melhor. Vivemos numa sociedade que ainda cobra demais da mulher e sabemos quanto é difícil ser mãe.
O FAMOSO COMPLEXO DE ÉDIPO É INSPIRADO NUM MITO GREGO: O FILHO MATA O PAI E CASA COM A MÃE. ISSO TEM A VER COM A RELAÇÃO DE MÃES E FILHOS NOS DIAS DE HOJE?
Sim, mas, como no mito, são necessários três personagens. A presença do pai, ou de uma figura masculina importante, seja avô, tio ou padrasto, é a garantia de que as fantasias ficarão no plano das fantasias. Faz parte da vida psíquica o desejo de amar e de matar o pai, mas isso fora do mundo real. A figura paterna também evita os prejuízos de uma relação exclusiva com a mãe, que, muitas vezes, sufoca e superprotege.
COMO FICA O COMPLEXO DE ÉDIPO PARA AS MENINAS?
Depois de um tempo, as filhas trocam de objeto de desejo: elas passam a admirar o pai e a concorrer com a mãe. Faz parte de seu amadurecimento, daí a importância da figura masculina.
DIZEM QUE A MÃE SEMPRE SE SENTE CULPADA E QUE É COMUM ELA USAR A CULPA PARA CHANTAGEAR EMOCIONALMENTE OS FILHOS. DÁ PARA ESCAPAR DESSA CILADA?
Se a mãe repassa para os filhos o seu sofrimento, é porque não encontrou outros espaços para elaborá-lo. Se abrir esses espaços, cria condições para escapar da cilada.Precisamos todos ser ouvidos, compreendidos. Caso contrário, despejaremos nossos fantasmas nos outros, incluindo os filhos.
FONTE: REVISTA CLÁUDIA

































