
A Feira de Arte e Artesanato da Afonso Pena foi palco, neste domingo, de uma ação conjunta contra a exploração do trabalho infantil. “Os casos mais graves encontrados são de quatro crianças levadas para abrigos porque as famílias não têm a mínima condição de garantir as necessidades básicas. Duas mães foram presas e indiciadas”, afirma a Coordenadora do Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente, Elvira Cosendey.
Cerca de 50 meninos e meninas foram abordados por técnicos de diversas entidades que lutam pela erradicação do uso de mão-de-obra de crianças e adolescentes. Os pais flagrados explorando os próprios filhos foram notificados pelo Ministério Público do Estadual e terão que assinar um Termo de Ajustamento de Conduta.
Atração turística da capital mineira, a feira acolhe todos os domingos compradores vindos de diversas cidades mineiras e de outros estados. Muitos ambulantes não-cadastrados usam o trabalho infantil para tentar aumentar as vendas. Também é comum encontrar crianças carregando caixas cheias de balas e bugigangas entre as barracas.
Já havíamos realizado outras ações aqui na feira, mas não surtiram os efeitos desejados. Por isso, decidimos fazer hoje (domingo) uma abordagem direta, com a retirada da ruas das crianças exploradas”, afirma a coordenadora. As famílias notificadas terão suas atividades acompanhadas por autoridades para evitar a permanência de situações degradantes.
Ação contínua
“Vamos fazer o mesmo tipo de abordagem em outras feiras e eventos da capital para coibir o trabalho infantil, seja ele explorado por familiares ou por terceiros”, garante Elvira. Participaram da ação neste domingo representantes da Prefeitura de Belo Horizonte, Ministério Público Estadual, Juizado da Infância e da Juventude, conselhos tutelares e Polícia Militar.
Veja como funciona o trabalho de abordagem:
Tirar das ruas crianças e adolescentes em situação de abandono e lhes oferecer melhores perspectivas de vida é a tarefa que equipes de assistentes sociais cumprem todos os dias.
São 15h de uma tarde ensolarada, em Belo Horizonte. Como se saísse do nada, o pequeno Gabriel (nome fictício), de 6 anos, dobra a esquina com o rosto coberto por uma camisa, tendo apenas os olhos arregalados à mostra e uma pistola de água em punho. Numa brincadeira, em tom de ameaça, ele grita: “Vou te pegar, vou te pegar!” O disparo da arma de plástico acerta em cheio as mãos da dupla de técnicos de abordagem Edwaldo Pereira Reis, de 39, e Edvaldo Anastácio, de 31. Lidar com essas surpresas e se manter firme diante de mais uma cena da dura realidade das ruas de Belo Horizonte faz parte da rotina dos dois funcionários da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social. Todos os dias, eles cumprem uma missão digna de heróis: dar a crianças e adolescentes, vítimas da exploração do trabalho infantil e em situação de mendicância, a perspectiva de um futuro melhor e de uma vida mais digna.O mais recente levantamento da prefeitura apontou a existência de 1.099 menores trabalhando ilegalmente ou pedindo esmolas nas ruas da capital. A mendicância foi apontada como a atividade mais comum, sendo praticada por 18,7% desses jovens. Em seguida, aparecem os vendedores ambulantes, que representam 17,4% do grupo, os guardadores de carro (15,4%) e os malabaristas (14,6%). A pesquisa ainda mostra que 72% dessas crianças e adolescentes são do sexo masculino e 96% deles moram com parentes e dormem em casa regularmente. Por fim, o trabalho indicou que cerca de 70% deles são da capital e o restante é proveniente de cidades do interior de Minas.
Roteiro
O dia da equipe de abordagem começa às 13h. Depois de definir um roteiro de ruas, avenidas e praças a serem percorridas, eles saem à procura de jovens que trabalham nos sinais de trânsito, pedem esmolas nas esquinas, cheiram cola e tíner ou perambulam pela capital, longe da escola e da família. O primeiro contato é marcado por um aperto de mãos, que abre espaço para uma conversa difícil, nem sempre bem aceita pelos menores, mas necessária. “O desafio é criar um vínculo, uma relação de confiança com os garotos. Nosso trabalho é retirá-los das ruas, mas isso não pode ser feito à força. Mostramos a eles um novo caminho, seja um abrigo público, seja a volta para casa. E o importante é que eles saibam que, quando quiserem mudar de vida, nós estaremos perto para ajudá-los”, diz Edwaldo.
Há seis anos como técnico de abordagem de rua da prefeitura, o assistente social Edwaldo – baixo e de pele e olhos claros – usa a persistência e a amizade como estratégia para vencer a resistência dos jovens. Ao seu lado, está sempre o parceiro Edvaldo Anastácio – um negro alto e forte, formado em filosofia e há mais de dois anos na abordagem. A dupla, cuja jornada só termina às 19h, integra uma equipe de 28 técnicos da secretaria. Com o apoio dos colegas psicólogos, pedagogos, geógrafos e advogados, os dois lutam diariamente por vagas em creches, escolas, projetos de trabalho protegido, atividades socioeducativas em horário complementar à sala de aula e abrigos temporários e permanentes para pôr um ponto final na trajetória de rua de crianças e adolescentes.
Depois da abordagem inicial, a missão da equipe prossegue com o preenchimento de uma ficha com dados do jovem. As informações, prestadas pelos garotos durante uma conversa informal com os técnicos, são checadas posteriormente pela secretaria, por meio de visitas domiciliares e contatos com escolas, abrigos, conselhos tutelares, Promotoria e Juizado da Infância e da Juventude. “Fazemos relatórios diários com a identificação e o encaminhamento dado à criança. Conseguimos levar muitos para os abrigos ou de volta para a casa da família, mas alguns retornam rapidamente às ruas. Eles têm dificuldade de cumprir regras impostas pelos educadores ou pelos pais e também sentem falta da liberdade, das drogas, do sexo e do dinheiro que têm na condição de menino de rua”, conta o filósofo.
Fonte: Portal Uai