Discussão é levantada após morte do adolescente L.M.F.S., de 14 anos
A morte de L.M.F.S., 14 anos, após se jogar do oitavo andar do prédio onde morava no centro da cidade, levanta uma série de perguntas sobre que motivos levariam um adolescente a tomar uma decisão tão radical. L. era um garoto alegre, que gostava de música, tinha problemas com as notas escolares como tantos outros e passava a maior parte do tempo livre em frente a um monitor, jogando videogame ou navegando em sites de relacionamento.
Amigos, familiares e professores são unânimes em afirmar que nada em L. indicava um comportamento depressivo ou qualquer anomalia de comportamento. Como então seria possível para os pais identificar sinais desse desejo inconsciente de morte?
Para o médico, psicoterapeuta e educador Antônio Pedreira, o tempo gasto diariamente pelo jovem em frente ao computador é um dos indícios de distúrbio de personalidade. “Pode ser uma fuga, ele poderia estar dizendo: ‘Abomino o mundo real e por isso escapo para o virtual’”. Pedreira explica que portadores de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são suscetíveis a comportamentos suicidas. Testemunhas ligadas ao jovem atestam que ela era hiperativo.
Segundo Antônio Pedreira, 86% dos suicídios são motivados por depressão e os depressivos nem sempre dão indícios tão óbvios. “É importante não subestimar qualquer sinal, como desconcentração, dificuldade para dormir”. De acordo com a análise transacional, método aplicado pelo psicoterapeuta, o comportamento suicida pode ser desencadeado pelo “ego da criança rebelde e vingativa”.
Pedreira afirma que todos possuem essa rebeldia e que o suicídio, na verdade, seria uma tentativa de agressão. “É uma das formas de vingança mais forte que se pode imaginar”, explica. O bilhete deixado no apartamento, com um pedido de perdão, poderia ser um sinal desse comportamento. A cobrança da mãe em relação ao rendimento escolar, como foi levantado, também pode ter produzido uma depressão capaz de levar ao suicídio.
Dor – A psicóloga infanto-juvenil e psicoterapeuta Kátia Queiroz explica que é normal o suicida não demonstrar a dor, mas vivê-la intensamente no subjetivo, no seu interior. A fase da adolescência, segundo a especialista, é muito complicada para os jovens porque eles estão suscetíveis a criticar e ser criticado.
Os pais devem estar atentos para alguns sinais e é preciso desmistificar o ditado “cão que ladra não morde”. Quem pretende se matar pode falar e algum tempo depois cometer o ato. Até mesmo as brincadeiras de dizer “se eu tirar nota baixa me mato”, podem ser indicativos de que alguma coisa não está bem. “Às vezes, a brincadeira é a forma de elaboramos nossas dificuldades”, avalia. Outra situação muito comum é o pai achar que determinadas atitudes do jovem são para chamar atenção ou porque é coisa de adolescente, completa Kátia.
Segundo a psicóloga, o suicida quer viver, mas não com dor e a única forma de tirar a dor de dentro de si é lançando-se. “Nesse momento, ele passa por um conflito, a vida não tem sentido, simbologia ou representatividade, fica um vazio completo. Ele tem a consciência que se morrer a dor desaparece junto”, explica. Kátia ainda afirma que o suicida pede socorro, mas, muitas vezes, de forma silenciosa, o que dificulta a ajuda de terceiros.
Colegas deixam aulas e vão a enterro
No enterro do jovem L.M.F.S., ontem pela manhã, no Cemitério Jardim da Saudade, o clima era de consternação e profundo pesar. Familiares lotaram a capela e do lado de fora, amigos da família e colegas de turma do colégio onde L. estudava, na cidade baixa, se recusavam a acreditar na notícia que receberam há pouco. Como as aulas da turma de L. se encerraram no final da manhã de terça-feira, a maioria dos companheiros de sala só foi avisada do ocorrido ao chegar para as aulas de ontem. Imediatamente, o grupo foi dispensado e todos se dirigiram ao cemitério para se despedir do colega.
A última lembrança era de um adolescente alegre, que vivia ouvindo hip hop no celular, gostava de filmar os colegas e brincava muito com todos. Luana Galvão, uma das companheiras de sala, lembra que era comum para L. algumas notas baixas, mas que ele nunca demonstrou grande preocupação com isso. “Ele, às vezes, tirava 4, 5, mas a preocupação dele era normal. A mesma de qualquer pessoa que tira uma nota baixa”, conta. Um outro colega teria comentado com a turma que nos últimos dias L. estaria apreensivo por conta de uma pequena cirurgia que teria que fazer nos dedos da mão.
A diretora do colégio onde o adolescente estudava, irmã Carmelina, desconhece uma queda brusca no rendimento escolar do garoto. “Estamos no início do ano”, lembra. Entre as recordações está a de um aluno “sempre com um sorriso” e que gostava muito de música. Outro lazer apreciado por L. era a piscina. O avô materno conta que era comum ele ficar até cinco horas na água e sair com as mãos roxas.
Mesmo relato do cunhado do pai, que freqüentemente recebia a visita de L. e da mãe, R.M.S.F., em sua casa no Cabula. “Casa com piscina e com cachorro, criança adora”, comenta. Ele recorda que L. gostava de esportes, mas sua “mania” eram os games. Sobre o rendimento escolar, ele atesta que era comum o adolescente ficar em recuperação “de uma ou duas disciplinas”, mas que sempre conseguia passar de ano.
Dentro da capela, era difícil conter a emoção ao ver mãe e pai, o também professor M.O.S., absolutamente inconsoláveis. O padre incumbido de comandar as orações, Renato Figueiredo Filho, era também o tio do menino e não conteve as lágrimas. Na saída do corpo para o sepultamento declarou: “Vamos levar nosso menino, esperar pela ressurreição”.
Perícia avalia indícios de suicídio
A titular da 1ª Delegacia dos Barris, Acácia Nunes, responsável pelo caso, está quase totalmente convencida da hipótese de suicídio. Ela aguarda apenas o resultado da perícia para descartar outras possibilidades e ainda não agendou depoimentos da família em função do estado emocional, principalmente da mãe.
Segundo ela, o apartamento não apresentava vestígios de conflito, todos os móveis estavam no lugar e não há manchas de sangue. A trajetória do corpo, em princípio, também condiz com a tese de que L. tenha se jogado, o que é reforçado pela presença da marca das palmas das mãos do adolescente no parapeito da janela. A delegada também pediu exame grafotécnico do bilhete encontrado no apartamento, onde se lê, em letras de forma: “Me desculpe, te amo”. A CPU do computador utilizado pelo adolescente também será periciada.
A titular da 1ª Delegacia dos Barris, Acácia Nunes, responsável pelo caso, está quase totalmente convencida da hipótese de suicídio. Ela aguarda apenas o resultado da perícia para descartar outras possibilidades e ainda não agendou depoimentos da família em função do estado emocional, principalmente da mãe.
Segundo ela, o apartamento não apresentava vestígios de conflito, todos os móveis estavam no lugar e não há manchas de sangue. A trajetória do corpo, em princípio, também condiz com a tese de que L. tenha se jogado, o que é reforçado pela presença da marca das palmas das mãos do adolescente no parapeito da janela. A delegada também pediu exame grafotécnico do bilhete encontrado no apartamento, onde se lê, em letras de forma: “Me desculpe, te amo”. A CPU do computador utilizado pelo adolescente também será periciada.
Pouca incidência no Brasil
Especialista em violência e mortalidade no Brasil, o pesquisador Júlio Jacobo aponta com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2004 que o Brasil não apresenta altas taxas de suicídio. Dos 84 países analisados, o Brasil ocupa a posição 67 entre a população em geral – com 4,5% de suicídios em 100 mil habitantes – e 66º lugar, quando a análise é feita entre os jovens de 15 a 24 anos – com 4,7% em cada 100 mil jovens. A Finlândia lidera o ranking com 44,3% de jovens suicidas em cada 100 mil habitantes.
Com base no Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde, Jacobo identificou que no Brasil as maiores taxas de suicídio são registradas a partir dos 15 anos. De 10 a 14 anos, o índice é de 0,6% em 100 mil habitantes, de 15 a 19 anos é de 3,4%. O indicativo mais alto é entre 40 e 44 anos, com 7% em 100 mil habitantes. O ranking dos jovens que abdicam da vida no país não é grande na Bahia. Roraima ocupa o primeiro lugar com 15,1% em 100 mil habitantes. Depois vem Mato Grosso do Sul com 14,6% e em terceiro o Amapá com 12,9%.
A Bahia ocupa o 26º lugar, entre os 27 estados brasileiros, com 1,8% de jovens suicidas (15 a 24 anos) em 100 mil habitantes. Comparado com a população baiana em geral que se mata não há muita diferença, já que os índices apontam 1,9% em 100 mil habitantes. Outro fator observado pelo pesquisador é o gênero. “A maior parte dos suicidas é formada por homens, numa proporção de que três a cada quatro suicidas são do sexo masculino”, afirma. No Brasil, 76% dos jovens que se matam são homens e 24% são mulheres.
SINAIS de alerta
Indicativos comportamentais
Auto-estima baixa
Medo de fazer enfrentamentos
Incapacidade de mudanças
Insegurança predominante
Falta de projeção na vida
Ter melancolia
Falta de relacionamento amoroso
Percepções distorcidas da realidade
Isolamento (preferir a rua ou trancar-se em um quarto)
Sentimento de abandono no final de um relacionamento
Indicativos psiquiátricos
Depressão
Esquizofrenia
Psicose
Atitude de estranhamento consigo mesmo
Mania de perseguição
Alucinação
Tristeza permanente
Fonte – Aqui Salvador

































