Para Ignácio Cano, sumiço de 84 menores em BH nos últimos dois anos também pode estar ligado a grupo de extermínio

A semelhança dos perfis dos menores desaparecidos na Grande Belo Horizonte e a proximidade das datas dos sumiços são apontados pelo promotor Herman Lott, do 2º Tribunal do Júri do Fórum Lafayette, como indícios de que um maníaco seja responsável pelos crimes. Para o sociólogo Ignácio Cano, pesquisador do laboratório de estudos da violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), além das características apontadas pelo promotor, o fato de as famílias das vítimas não terem recebido pedidos de resgate também aponta para a existência de um criminoso em série atuando na região.
O especialista ressalta ainda a possibilidade da atuação de um grupo de extermínio de crianças e adolescentes. Segundo a Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida (DRPD), 134 menores desapareceram em Minas nos últimos dois anos, sendo 84 na capital. “Se não há o pedido de resgate, a possibilidade de um maníaco atuando em série é grande e isso não pode ser descartado. Quando o menor é rico, pode ser um maníaco sexual ou um criminoso do tráfico de órgãos. Em se tratando de crianças pobres, existe no país casos concretos de grupos de extermínio”, afirmou Cano.
Segundo o sociólogo, grupos de extermínio foram responsáveis pelo sumiço de crianças em Natal (RN) e outras cidades do Nordeste. “Nesses grupos, sempre há o envolvimento de alguém ligado ao Estado, podendo ser um policial, bombeiro ou outro servidor público”, destacou o especialista. A existência de um assassino em série foi aventada pelo promotor Lott, que acompanha as investigações sobre a morte do garoto Pedro Augusto Santos Prates Beltrão, 12, que desapareceu no centro da capital.
Outros casos semelhantes ao de Pedro Augusto são os de Sérgio Lopes, 7, e Daniel Almeida da Silva, 7, encontrados mortos em Contagem e Sabará, respectivamente, após desaparecerem misteriosamente. No entanto, para o chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida (DCcV), delegado Wagner Pinto, que investiga o assassinato de Pedro Augusto, a existência de um maníaco é apenas uma conjectura. “Só existe esse fato concreto (a morte de Pedro Augusto), que é um caso complexo para elucidar”, disse.
Despacho de inquérito demora dois anos
Dois anos após o encontro da ossada do garoto Sérgio Lopes, 7, no bairro Perobas, em Contagem, o inquérito sobre a morte do menino ainda não foi despachado à Delegacia de Homicídios da cidade. Sérgio sumiu em dezembro de 2005 quando catava latinhas na rua. Sua ossada foi encontrada poucos dias depois. A delegada adjunta Cristiane Martins Duarte Carvalhais informou ontem que ainda não havia sido feito o despacho do inquérito para a unidade.
Antes da constatação da morte do garoto, o caso estava sendo investigado pela Delegacia de Desaparecidos. Antes de o inquérito chegar à delegacia de Contagem, ressaltou a delegada, alguns exames deveriam ser realizados pelo Instituto Médico-Legal (IML). “Isso é bem demorado”, ressaltou. A assessoria de imprensa da Polícia Civil não se posicionou sobre o atraso do início da investigação.
Centralização
Para evitar esse tipo de problema, o promotor Herman Lott defende a criação de uma unidade para investigar todos os desaparecimentos de menores ocorridos na Grande Belo Horizonte. Para ele, mesmo se os casos resultarem na morte das vítimas, os inquéritos deveriam permanecer na unidade para não prejudicar o prosseguimento das investigações. Segundo Lott, o Ministério Público Estadual não tem competência para propor uma ação determinando a criação da unidade que centralize os inquéritos. (EB)
Centralização é inviável, diz delegado
Para o chefe da Divisão de Crimes contra a Vida (DCcV), delegado Wagner Pinto, a centralização das investigações de desaparecimentos e homicídios em uma mesma unidade inviabilizaria os trabalhos. “Tenho muitos casos de homicídios para investigar e como posso entrar em investigação de desaparecimentos?”, questionou ele, se referindo aos mais de 7.800 inquéritos abertos na DCcV.
Segundo o sociólogo Ignácio Cano, o trabalho das delegacias de pessoas desaparecidas e de homicídios é feito de forma integrada em outros Estados. “É o caso de São Paulo, onde há a Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa”, disse. Wagner Pinto informou que a DCcV tem acesso aos inquéritos da Delegacia de Desaparecidos e é comum fazer estudos comparativos das investigações.
O delegado disse que na próxima semana tomará novos depoimentos de testemunhas do caso Pedro Augusto. Um dos depoimentos deverá ser de um conhecido da família do garoto, que o teria visto acompanhado de dois homens estranhos no dia do desaparecimento e forneceu as características dos suspeitos para que a polícia fizesse o retrato falado. (EB)
Fonte: Jornal O Tempo

































