
Desde maio, não se fala de outra coisa na Europa. Madeleine McCann, uma garotinha britânica de 4 anos, desapareceu do hotel onde estava hospedada com a família, no Algarve, Portugal. Desde então, os pais Kate e Gerry percorrem países, ganham apoio de celebridades, instituições públicas e privadas.
Até conseguiram que o papa Bento XVI abençoasse em Roma uma foto da menina e orasse por sua volta. Mas, longe da mídia, centenas de “madeleines” estão desaparecidas no Brasil. Indignadas com o desprezo das instituições, mães desesperadas se esforçam, sem recursos, para sensibilizar a comunidade.
Para se ter uma idéia, nada menos que 1.571 paulistas de até 12 anos, meninos e meninas, sumiram de suas casas desde o começo deste ano, segundo dados da Delegacia de Pessoas Desaparecidas.
Para compensar a falta histórica de investigadores e equipamentos, o órgão da polícia paulista se associa a uma universidade para investigar casos.
Uma “madeleine” brasileira, desaparecida em 1995, acabou na fundação de um grupo ativista que já cadastrou 7,2 mil famílias desesperadas, em todo o Brasil. Sem verbas públicas, as Mães da Sé já conseguiram devolver aos lares 1.688 pessoas. Crianças ou adultos.
Talvez o sucesso da associação fosse maior se nesse tempo todo (quase uma década), o grupo não dependesse de funcionários voluntários e doações em dinheiro para pagar as contas de água e luz da sede, no 13º andar do Edifício Andraus, no Centro de São Paulo.

Fabiana Esperidião da Silva, uma dessas “madeleines”, estudava na 7ª série e tinha 13 anos. No dia 23 de dezembro de 1995, ela esteve na casa de uma amiga que fazia aniversário, no bairro de Pirituba. Voltava à noite, caminhando pelas ruas do bairro. Em uma esquina, Fabiana se despediu de uma colega para seguir sozinha pelos 150 metros que a separavam de casa. Mas a garota nunca chegou.
Três meses mais tarde, inspirada na experiência de mães cariocas que se reuniam na Candelária, a mãe Ivanise colou uma foto de Fabiana numa cartolina e passou o domingo na frente da Catedral da Sé, conversando com quem passava.
A iniciativa dolorosa, solitária, passou a atrair a atenção dos paulistanos. Em poucas semanas, o grupo Mães da Sé já reunia dezenas de senhoras com dramas semelhantes.
Hoje, Ivanise Esperidião da Silva Santos é uma senhora de 45 anos. Desde 2002, ela vive separada de José Benedito, pai de Fabiana. Com os olhos cheios de lágrimas, ela admite que nunca conseguiu pensar em outra coisa.
“Eu saía de madrugada, perguntando pela minha filha em cada esquina”, lembra. “Meu marido ficou comigo dois anos sem me tocar. Eu achava um absurdo que ele sentisse desejo sexual tento uma filha desaparecida.”
O casamento acabou. E Ivanise saiu da casa alugada em Piritiba. É que, da janela da cozinha, ela via a esquina onde Fabiana foi vista pela última vez. Se mudou para a Freguesia do Ó, onde até hoje paga aluguel. Depende da viagem de coletivo que dura uma hora até chegar no Andraus, todas as manhãs.
Ivanise lembra que foi alertada por um psiquiatra sobre as iniciativas amalucadas de procurar a filha pelos cantos da metrópole. “Ele me fez ver que eu tinha fechado os olhos para meu marido e para minha outra filha, Fagna, um ano mais nova”, afirma. “Eu estava sendo egoísta, fechada no mundo de uma mãe desconsolada.”
Naquele dia da consulta médica, ela decidiu compartilhar com outras mulheres um drama que não era só dela.
Alagoana “arretada”, baixinha com 1m50, Ivanise ficou famosa denunciando em praça pública o descaso do poder público, que corriqueiramente associa o desaparecimento de uma pessoa ao envolvimento com o mundo do crime.
Ela, que aos 45 anos cursa o 4º ano de Direito em Guarulhos, afirma que a sociedade precisa entender que criaturas amadas, saudáveis, foram arrancados do convívio familiar. “Ah, seria lindo se tivéssemos brasileiros engajados na causa com a mesma paixão dos europeus no caso Madeleine”, suspira.
Solução chega para apenas 9% dos casos
Delegacia das Pessoas Desaparecidas, no bairro da Luz, tem apenas 20 investigadores
A Delegacia das Pessoas Desaparecidas, sediada no bairro paulistano da Luz, é um braço da Polícia Civil que centraliza ocorrências do gênero em todo o Estado de São Paulo. O titular da cadeira é o delegado Francisco Magano, de 46 anos, paulista de Descalvado que fez carreira na corporação sem nunca ter saído da Capital. Ele, que esteve à frente de diversas repartições do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), comanda a delegacia atual há menos de um mês. Tempo suficiente para perceber que terá muito trabalho pela frente.
“A procura por desaparecidos depende basicamente do altruísmo dos policiais”, fala. “Tenho, sob meu comando, 20 investigadores. Eles fazem buscas no Estado inteiro.” Para compensar a histórica carência de estrutura da polícia paulista, Magano decidiu explorar a tecnologia disponível. Primeiro, ele mantém no site da Polícia Civil o link com imagens de desaparecidos. Só crianças são 330.
Para resolver casos em que as vítimas perdem a memória (ou nem chegaram a conhecer os pais), a delegacia conta com a ajuda do Caminho de Volta. O projeto, desenvolvido pelo Centro de Ciências Forenses (Cencifor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), se propõe a encontrar crianças a partir da análise do DNA. Os pais fazem o teste gratuito (com coleta de sangue ou saliva) na própria delegacia. Também passam por entrevistas com psicólogas.
O convênio entre a USP e a Polícia Civil já formou um banco com as informações genéticas de 600 famílias. “Os dados podem ser confrontados assim que uma pessoa for encontrada”, explica o delegado. Mas a tecnologia, diz Magano, também tem sua face obscura. É possível, por exemplo, identificar cadáveres. “Pelo menos, a gente colabora para que parentes façam o sepultamento digno dos corpos encontrados”, fala.
E finais trágicos, admite, são muito comuns. Só 9% dos desaparecimentos registrados no Estado esperam solução. É muito comum, diz, que adolescentes morram em “acertos de contas” com rivais ou por causa de dívidas com traficantes. (RV/AAN)
OS NÚMEROS
40 MIL PESSOAS Desaparecem anualmente no Brasil pelas estimativas do Ministério da Justiça.
10% DOS CASOS É a média sem qualquer solução em todo o País.
8 MIL CASOS São registrados durante o ano só no Estado de São Paulo.
SAIBA MAIS
A quem recorrer em casos de desaparecimento:
Mães da Sé – Associação Brasileira de Busca e Defesa à Criança Desaparecida
Rua Pedro Américo, 32, 13º andar (Edifício Andraus), Vila Buarque, Centro de São Paulo
Telefone: (11) 3337-3331
E-mail: maesdase@globo.com
Site: www.maesdase.org.br
Delegacia da Pessoa Desaparecida (DHPP)
Rua Brigadeiro Tobias, 527, 3º andar, Luz, São Paulo
Telefones: (11) 3311-3262, 3311-3543 e 3311-3544
E-mail: pessoasdesaparecidas@ ssp.sp.gov.br
Na internet
www.policiacivil.sp.gov.br
www.caminhodevolta.fm.usp.br
www.desaparecidos.mj.gov.br
Fonte: Rogério Versignasse, site Cosmo Online







































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