Um comportamento diferente ou uma dificuldade inesperada de seu filho, um acontecimento traumático, uma reação surpreendente: o que pensar e qual atitude tomar na hora em que bate a dúvida de procurar um psicólogo. Saiba aqui que tipo de situação, quais especialistas você vai encontrar e por que não há razão para ter preconceito ou se sentir fracassado.
Quando planejamos ou temos um filho, a felicidade e a responsabilidade são tão grandes que muitas vezes nos parece uma missão impossível. Mesmo que a jornada já tenha começado. Diante de um conflito – de não conseguir que a criança saia da frente da TV até como fazê-la entender que seus pais não vão mais morar juntos –, é legítimo achar que a força de ser mãe ou ser pai vai desmoronar. Mas também legítimo é entender que pode precisar de ajuda. De alguém da família, de um educador da escola, de um amigo ou, sim, de um terapeuta. Mas quem é esse profissional? Como entender esses vários “psis” disponíveis?
Psicólogo, psicanalista, psicopedagogo e psiquiatra são alguns dos especialistas apoiadores dos pais, desde um caso de transtorno comportamental diagnosticado a uma dificuldade pontual emocional. Ah, mas antigamente não precisávamos deles, alguém pode dizer. Verdade, sabe por quê? Antes sabíamos menos sobre o que se passa na infância. “O preconceito contra esse tipo de atuação profissional está diminuindo porque temos informações melhores”, diz o pediatra Eduardo Juan Troster, coordenador da UTI Neonatal do Hospital Albert Einstein (SP). “As questões da saúde evoluíram tanto que é praticamente impossível só um profissional dar conta de um ser humano do ponto de vista clínico, orgânico, mental, emocional”, diz a psicóloga Rita Calegari, do Hospital São Camilo (SP).
A discussão acontece também em Brasília. Fez parte das reuniões sobre as indicações e normas da Agência Nacional de Saúde (ANS), que regula os planos de saúde no Brasil. Tanto que, desde junho do ano passado, os convênios médicos são obrigados a pagar por 40 sessões/consultas com psicólogo ou terapeuta ocupacional, que sempre devem ser indicados por um médico que já esteja cuidando desse paciente. “A gente vem sempre discutindo ampliar a participação desses profissionais por entender que é necessária uma visão multidisciplinar”, diz a médica e hebiatra Karla Coelho, gerente de atenção à saúde da ANS. E será que a lista desses profissionais nos livros do convênio médico pode diminuir o preconceito? “Sim, essa abertura pode ajudar a desmitificar a atuação de um psicólogo, por exemplo, e melhorar a avaliação da criança e do adolescente”, completa.
Claro que não é fácil enxergar um problema no filho. Para ninguém. Qual pai ou mãe não luta todos os dias para que ele seja feliz? “Os pais têm sempre um filho imaginado, e, às vezes, não conseguem aceitar o filho real, assumir para si mesmo que ele é diferente do esperado. É difícil não se culpar, não se decepcionar ou até sentir um certo ciúme de que outra pessoa vai ajudá-lo e não você”, diz Gina Khafif Levinzon, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise e professora do curso de psicoterapia psicanalítica da USP. Outra dificuldade pode ser a de não querer acreditar que o filho, de fato, tem algum problema e sempre buscar uma justificativa para o comportamento dele. Aceitar a realidade não quer dizer que você falhou.
Mas quando procurar ajuda? Há dois sinais mais fortes. “Primeiro, se a criança ou adolescente tem um problema acadêmico. Não uma nota baixa, mas quando realmente se percebe que não está aprendendo. Segundo, se tem algum prejuízo de relacionamento social. Se exclui ou é excluído, é impulsivo demais, fica isolado no recreio, não tem amigos. Com a criança sofrendo, investigue. E isso pode resultar em medicação, medicação e terapia, às vezes só terapia ou somente um aconselhamento aos pais”, diz o psiquiatra Gustavo Teixeira, autor dos livros Manual Antibullying e Desatentos e Hiperativos (ambos da Ed. BestSeller). Segundo ele, como a ciência aponta sempre que somos fruto da soma de genética e ambiente, pode-se fazer muito pela segunda parte. “Prevenção e intervenção precoce são oportunidades de ouro.”
Juntos pela criança
Parceria e foco são fundamentais. “Não adianta ter uma série de intervenções se os pais possuem uma conduta inapropriada. Indiretamente, eles quase que passam por um processo terapêutico também”, diz o psiquiatra Paulo Germano Marmorato, coordenador do Ambulatório de Socialização, do Serviço de Psiquiatria da Infância e do Adolescente do Hospital das Clínicas (SP). “Muitos temem que a criança fique dependente da terapia. Mas, na verdade, o objetivo é justamente fazer com que ela caminhe sozinha”, afirma Gina Levinzon.
Por isso, para Paulo Marmorato, os pais precisam saber o que está acontecendo com a criança o tempo todo. “Para entenderem que tipo de proposta o profissional oferece. É um ‘o que vamos fazer para que seu filho consiga lidar melhor com o que está acontecendo’”, afirma ele, que também é psicoterapeuta. “O profissional verá primeiro os pais, perguntará sobre a concepção e o parto, os primeiros anos de vida, se teve doenças, como é a questão da alimentação, sono etc., e qual a queixa. Só depois a criança entra e, se necessário, começam as sessões”, explica Rita Calegari. Nelas, a criança vai ser submetida a testes específicos, mas ela achará que está brincando. “A gente avalia tudo, pensa nos encaminhamentos, que podem ser desde a terapia, uma consulta a um neurologista ou até fazer uma atividade física”, diz a especialista.
As alterações de comportamento da criança são mais facilmente percebidas na escola. “O diagnóstico de um problema é frequentemente feito pela professora, que tem contato quase todos os dias do ano com a criança”, afirma Eduardo Troster. Seu colega de equipe do Hospital Albert Einstein, o pediatra Luiz Guilherme Florence, concorda, e pontua a importância do pediatra também estar atento aos sinais que a criança apresenta. “Nos Estados Unidos já existe uma especialidade pediátrica voltada para a análise de questões de desenvolvimento e comportamento. Ela abrange uma gama de situações vinculadas a esses quadros, desde o famoso transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) até questões mais gerais, como problemas de sono. Um dos principais objetivos é o de capacitar os pediatras gerais a enxergar esses tipos de problemas”, afirma. “O mais importante em relação ao diagnóstico de comportamentos alterados em crianças é a diferenciação entre um atraso esperado e o atraso que já demonstra sinais de patologias.” Ou seja, se temos uma rede de cuidados com a criança, o pediatra é o núcleo.
Paciência e foco
Se o diagnóstico exige habilidade do profissional, o tratamento pede paciência. É bem diferente de identificar um sintoma, levar ao médico, fazer o exame no laboratório, tomar o remédio e aguardar a cura. O tempo do tratamento varia conforme o caso e o método.
Paciência, rede de assistência e informação são os ingredientes principais, não só na hora de optar por levar a criança ao terapeuta, mas para lidar com ela todos os dias. “Caso nenhum significará fracasso dos pais. Criança não vem com manual, todos erram e podem corrigir seus erros”, diz a psicóloga Ceres de Araújo, professora da PUC-SP. “A ideia é ajudar os pais a desenvolverem melhor a capacidade de ser pais daquela criança”, diz a psicanalista Gina Levozin. Rumo a um mundo com menos culpas e com mais soluções.
Até com os bebês
No mundo inteiro há linhas de abordagem de observação e estudos sobre a saúde mental dos bebês, sempre demonstrando que eles são muito mais sensíveis do que imaginamos.
Isso pode apontar que, uma vez que a família esteja sofrendo, nunca é cedo demais para procurar ajuda. Sim, por mais que ele não deite no divã e conte sua história, é a porta de entrada para a terapia àquela família. A terapeuta Regiane Glashan é uma especialista. De tanta experiência na relação de vínculo mãe e filho, focou seu atendimento no pós-parto, como terapeuta perinatal ou, como o nome do seu site diz, “terapeuta de bebês”. “Um bebê quieto ou que dorme demais ou que não responde a estímulos, pode apontar problemas cognitivos, claro. Mas, se não tiver apresentado nenhuma doença, fazemos uma colcha de retalhos de informações com a família para chegar ao por quê”, afirma Regiane. Investiga-se de tudo. “Desde a ponte de sentimentos da mãe com o bebê até qual a rede de apoio que ela tem para cuidar do filho, ou o quanto ela se sente sobrecarregada, por exemplo.”
E quando o problema é com os pais?
Sensíveis ao que as rodeia, as crianças podem apontar os problemas, mas não ser a fonte. Ou seja: pode não estar acontecendo nada com o filho, mas é ele quem vai revelar a dificuldade da família.
E não apenas estamos falando de casais em conflito – chegando à separação ou não –, perda de emprego de um dos pais, ou outro fator traumático no dia a dia, em que os adultos estejam “pedindo socorro”. Mas também de casos em que a questão seja a exagerada expectativa dos pais e a comparação desmedida com outras crianças. Segundo os especialistas, chegam ao consultório os mais diversos casos. “Desde separações em litígio, ou alguém deprimido, até pais muito invasivos, que exigem demais da criança e do desenvolvimento dela”, explica a psicanalista Gina Levozin.
Muitas vezes os pais procuram o especialista, mas apenas uma conversa já resolve, até com o encaminhamento deles a uma terapia em separado. “A orientação pode ser suficiente. Informação correta acalma ansiedades”, diz a psicóloga Ceres de Araújo.
Fonte: Crescer